Black Stones Cherry

•19 de outubro de 2010 • 1 Comentário

Eu vou te mostrar o meu poder, a minha força e te silenciar com o meu grito. Como uma rosa quebrada, eu não tenho esperanças, mas faça tudo o que digo.

 

A demora é terrível. Odeio esperas, odeio esperar, mas não ligo que me esperem. Basta não deixarem-me na mão. Aquela estrela estúpida na porta parece tão empoeirada que o desgosto de chutá-la não valeria a pena. O jeito é jogar-me no sofá puído. Os ácaros ali parecem querer comer tudo o que eu tanto tinha mantido dentro da cabeça.

-A letra, a letra. Se eu esquecer desta vez, ficarão putos mais uma vez.

Levanto e dou algumas voltas pelo cômodo, batendo os pesados coturnos de propósito no chão. Aquele ar com cheiro de limpeza forçada estava me revirando o estômago. Estendi o braço entupido de anéis de metal para a penteadeira bamba no canto do camarim. Alcancei meus cigarros, ansiosa como o diabo estaria pra ganhar uma alma. Toquei um pra dentro da boca, parecendo estar famita. O isqueiro que carregava no pescoço junto a uma velha palheta fez-me o favor de acendê-lo para mim.

Levantei a cabeça e me medi pelo espelho. A maquiagem estava do modo como me agradava, negra, carregada, com olhos escuros e a boca vermelha. A fumaça do cigarro subia pelos meus curtos cabelos negros bagunçados de gel. Engoli em seco pelo pescoço preso numa coleira. Minhas roupas rasgadas e agressivas gritavam que eu não tinha vindo pra ficar de putaria. Respirei com o cigarro na boca e me encarei.

-É isso. É isso aí. Tá pronta? Acho que sim. Pronta pra botar pra fuder.

Me virei, me afastei forte da prateleira e me encarei de novo no espelho. Minha saia jeans esfiapada deixava a meia arrastão à mostra. Sorri com vontade, tirei o cigarro da boca e apontei puta pro espelho. Gritei como se eu quisesse arranhar aquela merda e remexer algum cadáver do caixão.

-É pra arregassar aquela porra, Cherry!

Neste instante, a porta se abre. O empresário viadinho me olha de baixo pra cima, me medindo com desprezo. Filho-da-puta fresco. Retribuí o olhar como se eu quissesse arrancar o couro dele com uma faca. Ele suspirou com a cena, revirou os olhos e me informou.

-Está gritando sozinha de novo, mulher? Precisa se tratar. Você entra em 30 segundos. Tente se controlar no palco, ou a gravadora vai ter que custear os seus estragos de novo.

-Vão tomar nos seus cús, bando de exploradores. -Rosnei pra ele, e ele deu risada da minha cara.

Voltei a pisar fundo com os coturnos e passei ao lado dele pela porta. Dei uma leve piscadela, já com o cigarro na boca de novo.

-Não se preocupe. Deixe tudo nas minhas costas. Eu vou subir naquele palco e mostrar quem eu sou.

Ele sorriu com mais naturalidade e botou a mão no ombro da minha jaqueta.

-Arrasa, vaca.

Me apressei pelos corredores. Ah, caralho, meu estômago estava embrulhado. Mas eu nem podia sonhar em voltar atrás. Aquilo era tudo o que eu queria ter alcançado. Deixei tudo que eu tinha pra trás, me agarrei com unhas e dentes em todos os meus sonhos.

Eu nasci sem qualquer um deles. Assim como todos nascem nus e jogados nessa merda de mundo. Como se eu tivesse furado essa festa toda, quis transformar a merda em vida e a vida em sonho. Fiz a minha lista, escutei meu Sex Pistols, mandei todo mundo tomar no cú e fui correr atrás dos meus sonhos. E eu agora podia escutá-los. Eles gritavam o meu nome. Aquele som incrível de sonho estava irrompendo do palco em minha frente.

Dei meu primeiro passo pro holofote central. Meu microfone me esperava como sempre com uma rosa amarrada em fita negra. Tirei o cigarro da boca e tentei me conter. Meu coração queria rolar pela garganta e me deixar ali pra morrer. Mas aquele era o auge de todo a glória da minha vida. Parei em frente a todos. Olhei pra cima. E a multidão irrompeu em gritos histéricos.

Todos gritavam o meu nome.

Cherry, cherry! Eles pediam, imploravam. A gritaria virou respiração. Eu inalei o fôlego de todos os que me ofereciam, e puxei o microfone. Dei um sorriso de ponta a ponta e levantei o cigarro no ar.

-QUEM TÁ PRONTO PRA BOTAR PRA FUDER?!

E todo aquele fôlego, toda aquela voz, todos aqueles sonhos deixaram o chão e juntaram as mãos, em grande euforia. A resposta foi unânime e o voto foi inegável.

A guitarra estourou um acorde potente e o baterista desceu o braço. Se poupar na frente de um instrumento é um crime de forca. Você está num palco. Suando. Soando. Gritando. Como eu também estou. Abri a garganta e soltei as palavras como me vinham na cabeça.

Eu não precisava lembrar de porra nenhuma. Nem queria lembrar. Eu cantei com o coração. Eu cantei com o sangue e o corpo. Eu cantei com as almas e as auras. Eu cantei com toda a labuta e felicidade.

Eu cantei.

E enquanto as luzes passeavam pela massa ensandecida, enquanto minha voz propagava-se alta no ar, e a banda gemia em imponente sinfonia rebelde… Eu senti aquela porra toda, aquele bate dos infernos, aquela épica sensação.

De que o sonho tinha sido realizado.

Live Fast And Die Young.

But before you die, give your love, scream your dreams out, blow your mind, and show your power to the whole world.

Em resumo…

Bota pra fuder nessa porra!

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Song of love for Julia

•14 de outubro de 2010 • 1 Comentário

O sol está acima, o céu está azul, é lindo, assim como você, querida…

-Ugh, mas que horas são…?

A garota de cabelos cacheados e naturalmente bagunçados abriu os olhos entupidos de uma noite de sono desconfortável. Tinha em sua cabeça uma faixa colorida, no rosto serelepe um óculos escuro redondo, uma blusa branca encardida por baixo de um colete de franjas e contas. Vestia calças rasgadas e uma sandália esfiapada. Mas nenhum cobertor.

-Que estranho, será que dormi descoberta? Mas… peraí… ONDE DIABOS EU ESTOU?!

Rapidamente ela se sentou no banco do ponto de ônibus. Esfregou bem os olhos por baixo dos óculos e certificou-se dos seus arredores. Areia, deserto, e muito, muito sol. Não havia viva alma. Apenas uma bola de feno que rolava pra lá e pra cá no asfalto.

-Ah, droga, eu devo ter dormido demais.

Era normal que ela se acostumasse com lugares estranhos. Afinal, ela também era só uma estranha. Então porquê os lugares também não podiam ser? Se as pessoas se acostumam tão fácil com qualquer coisa estranha a seu redor, porquê não se acostumar também com o fato de acordar num deserto desconhecido, oras?

-Ah, hey, cachorrinho! Você não saberia me dizer minha latitude, huh?

Ela reparou que um pequenino vira-lata fuçava em suas coisas caídas no chão, que resumiam-se numa capa desgastada de violão. O cachorro lambeu sua mão e latiu simpático. Mas ela não tinha qualquer comida.

-É, eu sabia que não. Mas obrigada mesmo assim. A viagem parece que será longa, mas uma aventura a mais sempre é bem vinda. Quer me acompanhar?

A jovem então levanta-se, colocando a capa em suas costas, e sorrindo bobamente para o cão, que latiu mais uma vez, balançando a cauda suja de areia. O asfalto quente parecia distorcer o ar à sua frente. Mas o sol estava brilhando e o céu estava tão azul que nada mais parecia impossível.

-Então vamos que nosso caminho é longo e a vida é curta demais pra tanto chão, meu amigo!

Um caminhão se aproximava ao longe. Ela sabia que era sua deixa. Estendeu o polegar no ar e esperou que o veículo se aproximasse. Era um volvo antigo, grande, que parecia carreteiro. O slogan de um sol nascente com as palavras Sunshine Rise lhe soaram animadoras na cabecinha mirabolante. Da cabine, um senhor grisalho e gordo sorria cálidamente. Um beagle com peles excedentes pelo focinho botou a cara pra fora e latiu falhadamente.

-Precisa de carona pra onde, jovem?

-Ora, pra onde o senhor estiver indo.

-Suba, não se demora. Eu e Chester precisamos mesmo de companhia.

-Ouf ouf!

A garota deu a volta pela frente do volvo, abriu a porta e escalou cabine adentro. Seu amigo canino lhe acompanhou, o que de modo algum pareceu acanhar Chester nem irritar o bom senhor. Ela sorria amigável para o homem, que engatou a marcha e acelerou sua velha jamanta estrada afora.

-Obrigada pela ajuda, senhor! Pode me chamar de Julia!

-Bem vinda a bordo, pequena Julia. A aventura será longa e a estrada está gritando. Conhece uma boa canção?

-Oh, pensei que o senhor não ia me pedir nunca!

Julia ria consigo mesma, enquanto retirava o violão marrom pintado de sua capa gasta. O vira-lata e Chester curtiam o vento nos focinhos pela janela, enquanto Julia sorria cantando acordes pela cabine do caminhão, que deslizava feroz pelo deserto desconhecido.

The sun is up, the sky is blue, it’s beautifull, and so are you!

The Chapman’s Red Lips

•14 de outubro de 2010 • 1 Comentário

Ela não é uma garota que erra muito. Oh yeah…

Entrou em seu quarto escuro como uma sombra a mais, com o cheira da sua presença carregada, cheiro de sangue e rosas. Vestia como era habitual vestir, seu sobretudo preto, botas longas de salto vinil, um óculos escuro, mesmo que não houvesse necessidade. Abaixo da aba de seu delicado chapéu negro, seus cabelos curtos cor de ébano roçavam acima de sua nuca.

Seus lábios. Ah, seus lábios pintados de um vermelho hipnotizante sorriam para a escuridão. Pareciam acariciar seu rosto petrificado de porcelana, tão branca, tão branca.

Do bolso interior de seu sobretudo, ela tira com cuidade entre as unhas vermelhas bem feitas, um exemplar de “The Catcher in the Rye” gasto e um maço de Cinnamon Black. Depositou o velho livro em cima da mesa de madeira castigada, e puxou um cigarro negro de dentro do maço. Estendeu a mão até sua garrafa de Red Label, e encheu meia taça com o querido líquido.

Após acender seu cigarro, o cheiro do tabaco e do álcool tomaram o ambiente. Ela apenas estava em seu preparo. Gostava de afundar-se em exuberante desespero, prazeroso e contido, antes de explicitar seus mistérios. Foi até a persiana e a entreabriu, apoiando o cigarro em seu batom rouge. Via um jovem de cabelos longos e semi-encaracolados aproximar-se do prédio em ruínas que habitava sorrateira. Ele parecia confuso ao encarar o local, mas assim que pôde vislumbarr o reflexo dos lábios avermelhados da jovem na janela, seguiu em frente.

Ela estava preparada. O gosto ardente do Red Label desceu cortante por sua garganta, enquanto ainda apoiava o Cinnamon Black em seus lábios desejáveis e gritantes. Retirou de seu bolso lateral então um revólver calibre 38. Sentou-se na mesa, de frente para a porta entreaberta, de onde esperava ansiosa sua vítima. E assim como quaria, ele a viu.

O jovem apressou-se em adentrar o quarto escuro, incentivado pelo chamado oculto da jovem de lábios vermelhos. Parecia se arrastar pelo assoalho, que gemia. A jovem ergue a arma satisfeita, impedindo que o tempo permitisse o rapaz de ter qualquer outra reação em seu rosto jovial.

5 tiros. 5 disparos. 5 buracos. E um cadáver no chão.

Chapman’s Red Lips, era sua alcunha. Tomou seu livro e o guardou no bolso interno mais uma vez. Fez o mesmo com seu revólver, que comprara de um amigo qualquer na Georgia. Debruçou sobre o corpo quente e beijou-lhe os lábios frios, marcando-o com o vivo vermelho sangue de seu batom, que refletia no sangue espalhado pelo quarto escuro. Chapman então escoou o resto de seu Label no rapaz, infeliz pelo desperdício de seu álcool. Foi então, e apenas então que ela retirou o cigarro de sua boca. Fundiu-se mais uma vez às sombras, fazendo o assoalho gemer baixinho. Mas da escuridão, a brasa de seu Cinnamon Black percoreu o ar carregado, e estrondou no chão.

O fogo foi instantâneo. O olhar vivaz da jovem percorreu o local manchado de sangue, batom, balas, sombras e morte e ela sorriu satisfeita consigo. E fechou a porta atrás de si, firmando seus saltos vinis passo ante passo para a escadaria, como se nada deixasse para trás, além de seu gosto por queimar tudo aquilo que desejava.

This Burning Desire…