Eu vou te mostrar o meu poder, a minha força e te silenciar com o meu grito. Como uma rosa quebrada, eu não tenho esperanças, mas faça tudo o que digo.
A demora é terrível. Odeio esperas, odeio esperar, mas não ligo que me esperem. Basta não deixarem-me na mão. Aquela estrela estúpida na porta parece tão empoeirada que o desgosto de chutá-la não valeria a pena. O jeito é jogar-me no sofá puído. Os ácaros ali parecem querer comer tudo o que eu tanto tinha mantido dentro da cabeça.
-A letra, a letra. Se eu esquecer desta vez, ficarão putos mais uma vez.
Levanto e dou algumas voltas pelo cômodo, batendo os pesados coturnos de propósito no chão. Aquele ar com cheiro de limpeza forçada estava me revirando o estômago. Estendi o braço entupido de anéis de metal para a penteadeira bamba no canto do camarim. Alcancei meus cigarros, ansiosa como o diabo estaria pra ganhar uma alma. Toquei um pra dentro da boca, parecendo estar famita. O isqueiro que carregava no pescoço junto a uma velha palheta fez-me o favor de acendê-lo para mim.
Levantei a cabeça e me medi pelo espelho. A maquiagem estava do modo como me agradava, negra, carregada, com olhos escuros e a boca vermelha. A fumaça do cigarro subia pelos meus curtos cabelos negros bagunçados de gel. Engoli em seco pelo pescoço preso numa coleira. Minhas roupas rasgadas e agressivas gritavam que eu não tinha vindo pra ficar de putaria. Respirei com o cigarro na boca e me encarei.
-É isso. É isso aí. Tá pronta? Acho que sim. Pronta pra botar pra fuder.
Me virei, me afastei forte da prateleira e me encarei de novo no espelho. Minha saia jeans esfiapada deixava a meia arrastão à mostra. Sorri com vontade, tirei o cigarro da boca e apontei puta pro espelho. Gritei como se eu quisesse arranhar aquela merda e remexer algum cadáver do caixão.
-É pra arregassar aquela porra, Cherry!
Neste instante, a porta se abre. O empresário viadinho me olha de baixo pra cima, me medindo com desprezo. Filho-da-puta fresco. Retribuí o olhar como se eu quissesse arrancar o couro dele com uma faca. Ele suspirou com a cena, revirou os olhos e me informou.
-Está gritando sozinha de novo, mulher? Precisa se tratar. Você entra em 30 segundos. Tente se controlar no palco, ou a gravadora vai ter que custear os seus estragos de novo.
-Vão tomar nos seus cús, bando de exploradores. -Rosnei pra ele, e ele deu risada da minha cara.
Voltei a pisar fundo com os coturnos e passei ao lado dele pela porta. Dei uma leve piscadela, já com o cigarro na boca de novo.
-Não se preocupe. Deixe tudo nas minhas costas. Eu vou subir naquele palco e mostrar quem eu sou.
Ele sorriu com mais naturalidade e botou a mão no ombro da minha jaqueta.
-Arrasa, vaca.
Me apressei pelos corredores. Ah, caralho, meu estômago estava embrulhado. Mas eu nem podia sonhar em voltar atrás. Aquilo era tudo o que eu queria ter alcançado. Deixei tudo que eu tinha pra trás, me agarrei com unhas e dentes em todos os meus sonhos.
Eu nasci sem qualquer um deles. Assim como todos nascem nus e jogados nessa merda de mundo. Como se eu tivesse furado essa festa toda, quis transformar a merda em vida e a vida em sonho. Fiz a minha lista, escutei meu Sex Pistols, mandei todo mundo tomar no cú e fui correr atrás dos meus sonhos. E eu agora podia escutá-los. Eles gritavam o meu nome. Aquele som incrível de sonho estava irrompendo do palco em minha frente.
Dei meu primeiro passo pro holofote central. Meu microfone me esperava como sempre com uma rosa amarrada em fita negra. Tirei o cigarro da boca e tentei me conter. Meu coração queria rolar pela garganta e me deixar ali pra morrer. Mas aquele era o auge de todo a glória da minha vida. Parei em frente a todos. Olhei pra cima. E a multidão irrompeu em gritos histéricos.
Todos gritavam o meu nome.
Cherry, cherry! Eles pediam, imploravam. A gritaria virou respiração. Eu inalei o fôlego de todos os que me ofereciam, e puxei o microfone. Dei um sorriso de ponta a ponta e levantei o cigarro no ar.
-QUEM TÁ PRONTO PRA BOTAR PRA FUDER?!
E todo aquele fôlego, toda aquela voz, todos aqueles sonhos deixaram o chão e juntaram as mãos, em grande euforia. A resposta foi unânime e o voto foi inegável.
A guitarra estourou um acorde potente e o baterista desceu o braço. Se poupar na frente de um instrumento é um crime de forca. Você está num palco. Suando. Soando. Gritando. Como eu também estou. Abri a garganta e soltei as palavras como me vinham na cabeça.
Eu não precisava lembrar de porra nenhuma. Nem queria lembrar. Eu cantei com o coração. Eu cantei com o sangue e o corpo. Eu cantei com as almas e as auras. Eu cantei com toda a labuta e felicidade.
Eu cantei.
E enquanto as luzes passeavam pela massa ensandecida, enquanto minha voz propagava-se alta no ar, e a banda gemia em imponente sinfonia rebelde… Eu senti aquela porra toda, aquele bate dos infernos, aquela épica sensação.
De que o sonho tinha sido realizado.
Live Fast And Die Young.
But before you die, give your love, scream your dreams out, blow your mind, and show your power to the whole world.
Em resumo…
Bota pra fuder nessa porra!



